Pular para o menu
1328627281
ENTREVISTA

Acidentes constantes denunciam descaso da Petrobras com Segurança

Técnico de segurança, diretor do Sindipetro/RN, acompanha a comissão de apuração do acidente na PUB III

07 de fevereiro de 2012 às 12:08

Um acidente no dia 26 de dezembro de 2011 na Plataforma Ubarana III da Petrobras (PUB-3), localizada na Região de Guamaré, vitimou fatalmente o técnico de segurança Aldo Dias, e deixou dois feridos, o mecânico Francisco Wilson Vieira e o técnico de operação Pedro Leopoldo da Silveira Neto.

O acidente ocorreu devido a um problema na operação do guindaste de transbordo, que após manobra brusca teria balançado o cesto e alguns trabalhadores caíram de uma altura aproximada de seis metros. A apuração, embora ainda não concluída, reafirma o entendimento do Sindicato de que o acidente tem como causa as ações gerenciais ao longo das últimas décadas, cujo resultado é uma área completamente desmontada, com equipamentos obsoletos – caso do guindaste da PUB-3; equipamentos inadequados ao transporte e transbordo de pessoas – a utilização da cesta, das lanchas sem estabilidade; ausência de plano e equipamentos de salvatagem, como fica claro no acidente. Além disso, a empresa descumpre os acordos e mantém desvio de função, como é o caso da luta dos operadores em relação a operação de guindastes.

A proposta do sindicato para o Ativo-Mar estão listadas em plataforma aprovada pela categoria durante a realização de assembléia no último dia 26 de janeiro, no porto de Guamaré. Entre as reivindicações UTI no AR, fim da cesta, cronograma de construção dos atracadouros com prazo determinado, recuperação dos helipontos.

O Sindipetro/RN acompanha a comissão de apuração do acidente com a participação do diretor e técnico de segurança, Ionaldo Costa. Em entrevista à Assessoria de Comunicação do Sindicato, Ionaldo critica a insegurança crônica que mata trabalhadores na maior empresa da América Latina.

NA LUTA - Quais são as conclusões da comissão acerca das causas do acidente?

IONALDO COSTA - Falha mecânica, oriunda de uma política da companhia de negligenciar a modernização dos equipamentos, extremamente obsoletos, e a manutenção, que atualmente é precária. Os guindastes mecânicos de modelo HR têm uma falha crônica de vazamento de óleo lubrificante que cai na caixa das embreagens, o que somado à poeira e partículas do ambiente leva ao travamento das embreagens, e provoca o movimento do equipamento mesmo sem o comando do operador, o que de fato aconteceu.   

NL - As condições de trabalho, segurança e transporte de pessoas contribuíram de alguma forma para o agravamento do quadro do técnico do segurança Aldo Dias?

IC - Sim. O acidente ocorreu por uma combinação de fatores. Além do uso do equipamento obsoleto, temos um ambiente em que os locais para transporte de passageiros são inadequados. São cheios de obstáculos, como é o caso da área de transbordo do casaril. O transporte por cesta também é inadequado, sendo este procedimento o mesmo de 50 anos atrás, portanto arcaico. A Petrobras não está preparada no RN para atender um acidente grave ou com múltiplas vítimas. Falta planejamento, recursos para oferecer os primeiros socorros adequados e principalmente para transbordos. A lancha Marimar, por exemplo, embarcação utilizada no transporte do Aldo, é muito lenta e não condiz com a estrutura de uma empresa que se propõe a ser uma das melhores do mundo.

NL - Quais providências devem ser tomadas?

IC - Precisa-se criar um programa imediato de substituição dos guindastes mecânicos por hidráulicos, mais modernos e seguros, buscar alternativas ao uso de cestas, como o transporte aéreo e transbordo por atracadouro, ou, caso seja extremamente necessário o uso de cestas, que em seu lugar sejam utilizadas cápsulas, atualmente utilizadas nas empresas mais modernas do mundo. Também se fala em criar um plano de manutenção intensivo, enquanto os guindastes não podem ser substituídos, desmontando os equipamentos para fazer os consertos adequados. Para se ter idéia a Petrobras não faz a manutenção preventiva nesses guindastes há décadas, como é o caso da manutenção anual, que provavelmente detectaria o problema nas embreagens que gerou o acidente.

NL - Qual a sua opinião quanto à qualidade dos profissionais que atenderam?

IC - Reconhecemos que os profissionais fizeram todo o possível, tivemos os melhores profissionais, mas os recursos materiais disponíveis não permitiram que fosse feito mais. Faltaram recursos para primeiros socorros, uma segunda cesta para transbordo e heliponto disponível.  

NL - Quais as medidas que a Petrobras já adotou para prevenir ocorrências semelhantes?

IC - O SINDIPETRO-RN e a categoria ainda esperam um plano mais amplo com relação às ações da Companhia. Até o momento, as ações são meramente paliativas para o ocorrido. São necessários ainda muitos investimentos no setor de segurança, o que significa mais atenção da empresa. Guindastes tão antigos quanto o em questão continuam sendo operados na Petrobras no RN e em outras unidades. A vida útil deste equipamento, que tem sua manutenção obedecida, dura em média 20 anos, o que estava em utilização no acidente tinha pelo menos 35 anos de uso e não estava condizente com normas internacionais de segurança. 

Foram várias as oportunidades de a Petrobras prevenir este acidente. Uma em 2005, quando a empresa mandou substituir os guindastes reconhecendo estarem ultrapassados, outra na escolha dos locais de transbordo. E, também, se houvesse um programa de manutenção mais adequado e preventivo, o acidente certamente seria evitado. O guindaste já vinha apresentando um histórico de falhas, além do problema de vazamento de lubrificantes, o próprio botão de ligar e desligar apresentou falhas consideráveis semanas antes do acidente.          

Depois da perícia, o equipamento foi liberado para manutenção e uso, mas voltou a dar outros problemas, que poderiam ter provocado novos acidentes graves, e só então foi indisponibilizado. 

Considerações Finais.

Espero que o acidente sirva para que a Petrobras tome atitudes urgentes e permanentes. A empresa ainda não desenvolveu a cultura da prevenção de acidentes. Uma companhia que se propõe a ser a maior do mundo precisa investir fortemente na valorização dos empregados e em sua segurança. O Aldo era um profissional diferenciado e um ser humano insubstituível, por isso, a homenagem que a Petrobrás pode fazer, minimamente, é evitar que novos episódios como este ocorram. 

ALERTA

Muitas dúvidas ainda pairam sobre este e tantos outros casos de insegurança no trabalho ocorridos nas dependências da Petrobras. Para a diretoria do Sindipetro/RN, é difícil acreditar que uma empresa deste porte ainda tenha que usar tecnologias tão frágeis como esta que acidentou os trabalhadores na plataforma de Guamaré, ou que, no caso dos deslocamentos terrestres, os trabalhadores continuem se deslocando por estradas inseguras, sem qualquer gestão da empresa para alterá-las. Os sindicalistas afirmam, ainda, ser inconcebível que, numa empresa desta magnitude, falte atendimento de urgência apropriado para os trabalhadores acidentados.

A diretoria do Sindipetro/RN reitera a sua preocupação com o crescente número de casos de insegurança no trabalho. Diante de tais fatos, é imprescindível que se discuta maneiras de se melhorar as condições de segurança no trabalho, tanto no embarque marítimo, quanto no terrestre.

Compartilhar: