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Mulheres perseguidas pela ditadura são exaltadas como exemplo

16 de março de 2011 às 17:32

“Morreram, quem disse se vivos estão. Não morre a semente lançada na terra. Os frutos virão!”. Com poesia de Lila Ripoll, comunista e gaúcha como ela, a presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, deputada Manuela d´Ávila (PCdoB-RS), homenageou as mulheres que receberam anistia nesta terça-feira (15), em Brasília. Todos os demais oradores destacaram a luta das mulheres perseguidas pela ditadura como exemplos de vida e responsáveis pelo avanço na luta por igualdade de gênero.

A solenidade – a 13ª Anistia Cultural –, promovida pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, entregou seis portarias de anistia para mulheres que foram perseguidas pela ditadura. As anistiadas foram Sônia Hipólito, Denize Crispim, Rose Nogueira, Rita Sipahi, Damaris Oliveira Lucena e a ex-primeira-dama Maria Tereza Goulart.

Sônia Hipólito, que falou em nome das homenageadas, lembrou que compartilhou com a presidente Dilma Rousseff uma cela no Presídio Tiradentes, onde ficaram presas durante a ditadura. E, entre lágrimas e aplausos da plateia, ofereceu a homenagem a todos os que tombaram, em especial Aurora Maria Nascimento Furtado, a Lola, que foi barbaramente assassinada no Rio de Janeiro.

“A todas as Auroras, a todas as mulheres lutadoras desse país, que começaram sua luta muito antes da ditadura, em favor dos excluídos e contra os poderosos”, disse, lembrando que não se cometa novamente os mesmos erros e não aceitemos retrocesso histórico nesse país.

A fala de Sônia Hipólito foi compartilhada por Denize Crispim, que também contou a história de sua prisão na Oban (Operações Bandeirantes), grávida e aterrorizada. “Eu encontrei na cela três estrelinhas caídas do céu (em referência às colegas de cela) que me deram a possibilidade de sobreviver. Não a sobrevivência típica, a psicológica, por meio de solidariedade, afeto e carinho”, concluiu, abraçando-se a Sônia.

Lei imperfeita

A deputada Luiza Erundina (PSB-SP), em seu discurso, alertou que a anistia ainda está incompleta desde que o Supremo, analisando a lei, entende que a anistia se estende aos torturadores. E disse que entrou com projeto de lei na Câmara dos Deputados modificando a lei da anistia para excluir dos benefícios dela os torturadores.

“Se a lei está imperfeita, vamos corrigir as imperfeições e as injustiças que a lei possibilita”, afirmou, cobrando também a criação da Comissão da Verdade para que, a exemplo do que fizeram outros países, se façam as investigações dos abusos cometidos em nome do Estado brasileiro na época da ditadura.

A deputada Manuela d´Ávila disse que a Comissão da Verdade é um passo no longo caminho que se deve trilhar no resgate da nossa história, destacando que “esse resgate é importante para mostrar às gerações que não participaram desse processo, que essa é uma história que valeu a pena; que a coragem, a resistência e a dor deixaram sementes que frutificaram na luta pelos direitos plenos de democracia social, econômica e política”.

A secretária de Estado da Mulher do GDF, Olgamir Amância, disse que o evento marca o resgate da história da luta das mulheres pela democracia. “Mostra que em todos os momentos da história do Brasil, as mulheres foram protagonistas, mesmo tendo sido relegadas a um segundo plano no contar da história”, destacou.

O evento foi realizada em parceria com a Secretaria Especial de Políticas Públicas para as Mulheres (SPM), a Secretaria de Direitos Humanos (SDH) e a Secretaria da Mulher do Governo do Distrito Federal. Até dezembro de 2010 foram realizadas 12 anistias culturais lembrando e difundindo momentos e temas relevantes para o processo de redemocratização do Brasil, sendo duas delas dedicadas ao Dia da Mulher (2008 e 2009).

Novas anistias

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que fez a abertura do evento, destacou a participação das mulheres na defesa dos direitos humanos e na luta contra a ditadura. O presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abraão Pires Júnior, que conduziu a solenidade, emocionou o público ao pedir perdão, em nome do Estado brasileiro, às anistiadas.

Após a solenidade, foi realizada sessão especial de julgamento dos requerimentos de anistia política de quatro mulheres que enfrentaram a ditadura militar. Uma turma especialmente composta por nove conselheiras da Comissão de Anistia avaliou cada um dos processos.

Os processos julgados foram de Margarita Babina Gaudenz, esposa de Carlos Fernandes, militante de esquerda; Iracema Maria dos Santos, presa juntamente com o marido e o irmão, que foi morto, em 1969; Helena Jório de Vasconcelos, presa em dezembro de 1971, grávida e com uma filha de 11 meses; e Linda Tayah de Melo, integrante da ALN, presa por diversas vezes e submetida a tortura, tendo sido condenada a dois anos de prisão pela Justiça Militar. Todas as quatro receberam anistia.

Após os julgamentos houve ainda uma mesa de debates que tratou da importância da mulher na luta pelos direitos humanos e contra o regime de exceção. Três mulheres participaram do evento: a secretária Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça, Regina Miki, a deputada Luiza Erundina e a pedagoga Ana Maria Araújo Freire, viúva do educador Paulo Freire.

Homenageadas:

Sônia Hipólito – Militante da União Nacional dos Estudantes (UNE), foi presa pela primeira vez pelo DOPS/SP, por participar do congresso da entidade em São Paulo, em 1968. Em 1969 militou na Ação Libertadora Nacional (ALN), sendo presa novamente em 1970. Exilada em 1973, passou pelo Chile, Argentina, Alemanha e França, onde permaneceu até 1976. Voltando ao Brasil em 1979, passou a atuar junto a movimentos sociais e a militar no Partido dos Trabalhadores (PT).

Denize Crispim – Militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), foi presa quando estava grávida de seis meses de Eduarda, sua filha com Eduardo Leite “Bacuri” (de quem foi companheira até sua morte sob violenta tortura pelas forças da repressão). Sua soltura foi negociada mediante prisão do marido, visto por Denize pela última vez na prisão, desfigurado pelas torturas. Obteve asilo diplomático na Itália em 1971.

Rose Nogueira – Ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), era jornalista quando foi presa pelo “esquadrão da morte” do DOPS, em 4 de novembro de 1969, em São Paulo. Abrigou diversos resistentes e revolucionários em sua casa, entre eles Carlos Marighella. Rose foi presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) e do Grupo Tortura Nunca Mais/SP. Segue até os dias atuais com sua militância pelos Direitos Humanos.

Maria Thereza Goulart – Viúva do ex- presidente João Goulart, deposto em março de 1964, a primeira-dama exilou-se com a família no Uruguai e, posteriormente, na Argentina, onde Jango veio a falecer em 6 de dezembro de 1976. Maria Tereza voltou ao Brasil em 1976 para enterrar Jango, e em 1980 para viver novamente no país.

 

Rita Sipahi – Natural de Recife, foi dirigente da UNE, militante da Juventude Universitária Católica e participou da estruturação da Ação Popular no Ceará. Durante a ditadura emigrou para São Paulo e Rio de Janeiro, mas não conseguiu evitar seu sequestro e prisão pelas forças da repressão. Foi condenada pela Justiça Militar de São Paulo. Após a ditadura, estabilizou-se enquanto servidora pública e seguiu atuando junto a movimentos sociais.

Damaris Oliveira Lucena – Militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), viu o marido ser morto na frente dos filhos por agentes da repressão. Foi presa e banida juntamente com os filhos Adilson, Ângela e Denise Lucena, que ingressaram no sistema prisional ainda menores de idade.

Novas anistiadas:

Margarita Babina Gaudenz (BA) – Esposa de Carlos Fernandes, militante de esquerda. Considerada subversiva por denunciar a tortura de presos políticos fora do Brasil. Foi presa em 1971.

Iracema Maria dos Santos (SP) – Presa juntamente com o irmão e o marido, em 1969. Seu irmão foi baleado por policiais e torturado, não tendo resistido aos ferimentos. Iracema foi presa e igualmente torturada. Teve sua condição de ex-presa política, torturada, reconhecida pelo estado de São Paulo.

Helena Jório de Vasconcelos (MG) – Em dezembro de 1971, a anistianda, grávida e com uma filha de 11 meses, teve a residência invadida por mais de 10 agentes do Estado fortemente armados, e foi levada ao DOPS presa e encapuzada. Foi posteriormente enquadrada na Lei de Segurança Nacional. Professora do ensino público de Minas Gerais à época, informa ter sofrido forte pressão para afastar-se de suas atividades laborais, dada a perseguição política. Foi professora da PUC/MG e secretária Municipal de Educação de Ibirité (MG).

Linda Tayah de Melo (RJ) – Integrante da Ação Libertadora Nacional (ALN) desde 1969, foi presa por diversas vezes e submetida a tortura, tendo sido condenada a dois anos de prisão pela Justiça Militar. Em uma das prisões, a anistianda foi ferida na cabeça por tiro de arma de fogo, e, logo após, levada para uma sala de tortura para obtenção de informação. Não recebeu apoio médico durante todo o tempo em foi interrogada, apenas submetida a uma craniotomia. Durante uma de suas prisões, foi demitida do cargo de professora primária do Estado da Guanabara por "abandono de cargo".

Portal Vermelho

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