O que o Brasil fará com suas riquezas naturais diante de um mundo em transformação energética, marcado simultaneamente pela emergência climática, pela disputa internacional por recursos estratégicos e pela corrida tecnológica? Esta é a pergunta que está no centro do livro “Energia e Soberania: seremos capazes de transformar nossas riquezas naturais em desenvolvimento autônomo e bem-estar para o nosso povo?”, de Guilherme Estrella, ex-diretor de Exploração e Produção da Petrobras e um dos principais nomes associados à descoberta do pré-sal.

A obra tem patrocínio da Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (FISENGE), do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (SENGE-RJ), do Clube de Engenharia do Brasil e da Federação Única dos Petroleiros (FUP), e foi elaborada ao longo do último ano sob coordenação de Estrella.

O lançamento do livro aconteceu na última sexta-feira (28/8), durante o 14º Congresso Nacional de Sindicatos de Engenheiros (CONSENGE), em Belo Horizonte. O lançamento contou com a participação do engenheiro e secretário-geral da Fisenge, Clovis Nascimento; e do presidente da Fisenge, Roberto Freire; e reuniu mais de 200 profissionais.

Confira a seguir a íntegra da matéria publicada no portal Media Press sobre o evento.

Guilherme Estrella, o “pai do pré-sal”, lança livro sobre energia e soberania no 14º CONSENGE

O 14º Congresso Nacional de Sindicatos de Engenheiros (CONSENGE) recebeu, na tarde desta nesta quinta-feira (28) um dos nomes mais respeitados da geologia brasileira: Guilherme Estrella, associado à descoberta do pré-sal, para o lançamento do livro “Energia e Soberania: seremos capazes de transformar nossas riquezas naturais em desenvolvimento autônomo e bem-estar para o nosso povo?”.

A obra tem patrocínio da FISENGE, do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (SENGE-RJ), do Clube de Engenharia do Brasil e da Federação Única dos Petroleiros (FUP), e foi elaborada ao longo do último ano sob coordenação de Estrella. Na abertura da sessão, o presidente do SENGE-RJ, Clovis Nascimento destacou a presença do autor ao longo de todo o congresso, “prestigiando cada palestra, cada abertura”. A sessão de autógrafos foi marcada para a sede do Sindicato dos Engenheiros de Minas Gerais, na Rua Araguari, região central de Belo Horizonte, na noite desta sexta-feira.

Uma história pessoal e a memória de Oswaldo Cruz

Estrella abriu sua fala com uma lembrança pessoal, ligando o tema do livro à trajetória do próprio pai, que foi aluno da Escola Militar do Realengo e chegou a ser expulso da instituição — junto com toda a turma de formandos — por se recusar, ao lado dos demais cadetes, a se submeter a testes da vacina desenvolvida por Oswaldo Cruz, num episódio que o autor relacionou à resistência popular da época em servir de “cobaia” para experimentos científicos.

Segundo relatou, a formação em engenharia da época era fortemente voltada à topografia — disciplina essencial para viabilizar obras como a ferrovia que cortava a Serra Carioca, ligando o Rio de Janeiro a cidades como Petrópolis e Teresópolis, e que exigia precisão milimétrica para a instalação de pontes. Seu pai teria atuado como um dos assistentes brasileiros contratados para apoiar os topógrafos ingleses responsáveis pela obra.

A fundação da Petrobras: mobilização popular e o governo Vargas

Estrella situou a descoberta do pré-sal dentro da própria história da criação da Petrobras, que descreveu como fruto de mobilização popular em todo o país — Segundo o geólogo, a pauta energética entrou na agenda de governo com Getúlio Vargas, que teria colocado a produção hidrelétrica e, na sequência, o petróleo como pilares do desenvolvimento nacional — tema praticamente ausente durante a República Velha. Ele situou a criação do Conselho Nacional do Petróleo em 1938 e a descoberta do primeiro campo produtor brasileiro, o Campo de Candeias, na Bahia, em 1941 — campo que, segundo Estrela, seguiu em operação até ser vendido no contexto da política de desinvestimento da Petrobras após 2016, ponto que o autor caracterizou de forma crítica.

A equipe por trás do livro

Estrella reconheceu publicamente a equipe responsável pela obra. O processo de gravação de seus depoimentos foi organizado e editado pelo engenheiro Carlos Ferreira, nome de peso na área nuclear brasileira ligada à energia, descrito por Estrella como “um homem de cultura enorme”, atento a detalhes — em contraste, segundo o próprio geólogo, com a formação mais generalista típica dos geólogos, voltados à leitura ampla de bacias sedimentares de petróleo.

A jornalista Marina Amato foi responsável por dar a forma final de comunicação ao texto, num processo que Estrela descreveu como uma parceria de cumplicidade entre amigos, reunidos para produzir, já em fase avançada de sua trajetória, uma obra sobre energia como base do desenvolvimento nacional e da soberania brasileira.

Os primeiros anos da Petrobras e a chegada de Walter Link

Segundo o relato, a Petrobras foi fundada em 1952, mas só entrou efetivamente em operação em 1953-54, com uma equipe técnica de exploração e produção inicialmente composta majoritariamente por estrangeiros e por engenheiros vindos do antigo Conselho Nacional do Petróleo (CNP).

Mais tarde, a empresa contratou Walter Link, geólogo e diretor aposentado de uma companhia petrolífera americana, que trouxe ao Brasil uma abordagem de interpretação geológica baseada em experiência prática e leitura intuitiva de bacias — um método, segundo Estrela, ainda cercado de grande incerteza científica naquele momento. Link aplicou essa experiência nas bacias do Amazonas e do Paraná, ao longo da década de 1950, num esforço logístico descrito por Estrela como “gigantesco”.

Ambas as bacias, no entanto, não se revelaram, à época, grandes produtoras de petróleo — algo que, segundo o geólogo, só viria a ser compreendido décadas depois, com o avanço da geologia do petróleo enquanto ciência e a definição mais precisa das condições geológicas necessárias à ocorrência de grandes campos.

A virada para a plataforma continental e a decisão política

Estrella relatou uma passagem de sua trajetória em que participou de uma expedição para testar, no Brasil, um modelo geológico já validado no Golfo do México — referido por ele, em tom crítico, pela nomenclatura adotada recentemente pelo governo americano. O modelo se confirmou, ainda que sem produção economicamente relevante naquele primeiro poço. Um segundo poço, já na plataforma continental brasileira, tornou-se o ponto de virada. Segundo Estrela, a decisão de colocá-lo em produção — mesmo que fosse por apenas uma semana — não foi técnica, mas política: valorizar a plataforma continental como território produtor de petróleo era, segundo ele relatou ter ouvido da presidência da Petrobras à época, “um problema político”, não uma questão de engenharia. O campo, segundo o autor, produz até hoje.

Os limites tecnológicos das águas profundas

Estrella descreveu ainda como, nos primeiros anos de operação em águas rasas, problemas técnicos eram resolvidos com mergulhadores, que desciam para reparos até cerca de 300 metros de profundidade. Além dessa cota, a tecnologia da época simplesmente não permitia intervenção humana direta — um limite que, segundo ele, não decorria de dificuldades de perfuração em si, mas da falta de tecnologia de instalação e construção submarina para operar além dessa profundidade.

Esse trabalho rendeu à equipe brasileira um prêmio internacional descrito por Estrella como o “Nobel da engenharia de petróleo”, concedido nos Estados Unidos. Em 1992, já como superintendente da companhia, Estrela viajou a Houston para receber a distinção em nome da Petrobras, substituindo a diretoria em cima da hora — incluindo o então recém-empossado presidente da companhia, Benedito Lacerda. Sem domínio fluente do inglês, contou com a ajuda de uma secretária brasileira para traduzir seu discurso de improviso, num episódio que relatou com humor, incluindo o cuidado de não confundir duas palavras parecidas em inglês — uma delas ligada à ideia de “descarga”.

Monopólio estatal, competição e decisão de governo

Estrella recuperou um debate com Carlos Ferreira sobre o papel da competição de mercado na inovação tecnológica: questionado sobre como uma estatal monopolista, sem concorrência direta, conseguiu impulsionar tantos avanços tecnológicos, Estrella respondeu que a resposta não estava na lógica de mercado, mas em decisões de política de governo — foi esse tipo de decisão, segundo ele, que abriu caminho para o avanço da Petrobras rumo às águas cada vez mais profundas, a partir da cota de 300 metros.

A pausa nos investimentos e a retomada no governo Lula

Segundo o relato, os investimentos em exploração de novas áreas em águas profundas e ultraprofundas praticamente pararam durante o governo Fernando Henrique Cardoso, num contexto de exigência de lucratividade e de aversão a risco por parte da companhia. A retomada, segundo Estrella, viria no primeiro governo Lula, quando ele próprio ocupava o cargo de diretor de exploração da Petrobras, por volta de 2006.

A descoberta da rocha geradora sob o sal

Um dos pontos centrais do relato é a busca pela chamada “rocha geradora” do petróleo na Bacia de Campos — a formação geológica responsável por produzir o óleo migrado para os reservatórios explorados pela companhia. Segundo Estrella, havia uma disputa interna, quase política, entre geofísicos (mais apegados a dados concretos) e geólogos (de leitura mais interpretativa) sobre onde e como essa rocha geradora deveria ser identificada.

A virada veio com a contratação de um pesquisador da Chevron, cientista francês naturalizado americano, especialista em métodos geoquímicos de identificação de rochas geradoras. Ele viajou ao Brasil por conta própria, sem cobrar remuneração — pedindo apenas passagens de primeira classe e hospedagem de qualidade — e permaneceu no país por cerca de três meses, em períodos de uma a duas semanas por vez.

Com sua metodologia, a equipe percebeu que amostras até então interpretadas como evidência de rocha geradora eram, na verdade, resultado de contaminação: reservatórios pressurizados e cheios de óleo fraturavam as camadas de argila ao redor, fazendo o petróleo migrar para essas fraturas e distorcer a leitura geoquímica das amostras. A aplicação do novo método permitiu à equipe concluir que a verdadeira rocha geradora da Bacia de Campos estava abaixo da camada de sal — um marco que, segundo Estrela, redefiniu toda a compreensão sobre a origem e a migração do petróleo na região, dado o comportamento móvel e plástico do sal como barreira geológica.

O poço de 250 milhões de dólares e a descoberta da “Picanha Azul”

Estrella descreveu a decisão, tomada já sob o primeiro governo Lula, de investir pesadamente num único poço exploratório de altíssimo risco — um processo que se estendeu por cerca de um ano e meio e consumiu, segundo ele, US$ 250 milhões, valor que caracterizou como algo que “só uma empresa estatal comprometida com o Brasil” seria capaz de sustentar, diante da lógica de aversão a risco de operadoras privadas movidas por retorno a acionistas.

A perfuração enfrentou dificuldades técnicas sucessivas, exigindo paradas e retomadas repetidas — um processo de aprendizado incremental que, segundo Estrella, permitiu à equipe avançar até cerca de dois quilômetros de profundidade. O resultado foi a descoberta de uma formação rochosa até então desconhecida internacionalmente: uma rocha reservatório rara, com cerca de 800 metros de espessura, porosa, impermeável e de altíssima produtividade. A equipe batizou a formação de “Picanha Azul”, e o mapeamento posterior da área revelou reservas estimadas, segundo o relato, em mais de 100 bilhões de barris — superiores, segundo Estrela, às do Mar do Norte.

Os bastidores com o presidente Lula

Estrella relatou, com tom bem-humorado, os bastidores da comunicação da descoberta ao então presidente Luiz Inácio Lula da Silva — incluindo um telefonema tardio da secretária presidencial pedindo que ele retornasse à ligação, e um mal-entendido inicial que interpretou como cobrança pessoal do presidente. Também descreveu como, num evento oficial, em que Lula pediu explicações sobre a exploração do pré-sal e foi orientado por Estrella a não divulgar ‘por enquanto’ e precisou explicar a origem geológica do pré-sal em termos simples para a plateia, evitando compartilhar detalhes técnicos sensíveis que pudessem, segundo suas palavras, “eu não posso falar nada e amanhã vai sair no Jornal Nacional” — numa piada sobre a dificuldade de manter sigilo estratégico sobre uma descoberta de escala tão grande de petróleo.

Estrella mencionou ainda um episódio envolvendo a adaptação de uma unidade de produção já instalada na Bacia de Campos — num processo conduzido, segundo o relato, sob orientação de um executivo identificado como José Figueiredo (nome a confirmar) — para viabilizar a produção também a partir de reservatórios do pré-sal em profundidades e volumes maiores, com prazo de poucos meses para adaptação.

Fechamento: riqueza mineral e soberania

Estrella encerrou sua fala situando a descoberta do pré-sal dentro de um quadro mais amplo da riqueza natural brasileira — citando a disponibilidade hídrica e mineral do país, as bacias hidrográficas mais importantes do planeta, e questionando o que, afinal, “segura esse país” diante de tamanho potencial. Ele fez ainda referência crítica a episódios de ingerência norte-americana sobre a soberania brasileira, num tom que remete diretamente ao título do livro.