Olá, companheiros e companheiras!

Mesmo que tardiamente, deixo meus votos de um Feliz Ano Novo, ainda que a marcha atual dos acontecimentos no mundo, e também no Brasil, seja motivo de grande preocupação. Escrevo para compartilhar algumas reflexões sobre um tema que, de forma oportuna e acertada, vem ganhando atenção crescente e estimulando debates qualificados entre muitos leitores desta página.

Entendo que a atual crise do capitalismo e as decisões geopolíticas mais recentes, tomadas por diferentes países, em distintos momentos e níveis, expressam a sobreposição de várias camadas de problemas e interesses. Esses variados estratos, muitas vezes, acabam por camuflar a contradição principal que, a meu ver, precisa estar permanentemente no radar dos verdadeiros patriotas e progressistas.

No caso recente da Venezuela, por exemplo, o acesso a bens estratégicos como petróleo, ouro, prata, terras raras, entre outros, constitui, sem dúvida, uma dessas camadas. No entanto, considero um equívoco interpretar a eventual escassez ou déficit desses recursos por parte dos Estados Unidos como a motivação determinante das agressões recentes, ou das que ainda podem vir a ocorrer.

Para ilustrar melhor essa questão, tendo a recorrer à imagem de um bulbo de cebola, com sua casca externa e as várias camadas concêntricas internas. O acesso às reservas de recursos naturais e energéticos corresponde a uma dessas camadas, mas não representa o caule, e muito menos a gema do problema central original.

O que está no “centro da cebola”, imanente ao chamado “Corolário Trump”, é a crescente necessidade do governo estadunidense de impedir que qualquer país, sobretudo aqueles considerados parte de seu “quintal”, possa diversificar suas reservas monetárias. Esse movimento já vem ocorrendo de forma progressiva em nosso continente e em diversas outras regiões do mundo.

Trajetória

Em 2025, segundo relatório do Departamento do Tesouro dos EUA publicado em outubro, a dívida pública daquele país atingiu a cifra histórica de 38 trilhões de dólares. Esse montante equivale a cerca de 130% do PIB estadunidense e, convertido em reais, ultrapassa os 200 trilhões, algo em torno de 17 vezes o valor de todos os bens e serviços finais (PIB) produzidos pelo Brasil em 2024.

Para rolar continuamente essa dívida, acumulada ao longo de décadas, os EUA adotaram – e seguem adotando, uma série de estratégias, especialmente após o rompimento do acordo de Bretton Woods, que vigorou entre 1945 e 1971. Até então, as moedas nacionais, inclusive o dólar estadunidense, tinham o ouro como parâmetro de conversibilidade, fixado em 35 dólares por onça.

Em 1971, porém, os EUA rompem unilateralmente com esse padrão, pondo fim ao sistema de câmbio fixo e transformando o dólar em uma moeda fiduciária. Por definição, moeda fiduciária é todo título não conversível, sem lastro em metal precioso (ouro, prata…) e sem valor intrínseco próprio.

Seu valor decorre exclusivamente da confiança na autoridade emissora ou da imposição legal exercida pelo Estado. Nessa categoria, além de papel-moeda, enquadram-se títulos de crédito, ordens de pagamento e instrumentos financeiros em geral.

Petrodólar

Nos primeiros anos da década de 1970, em meio à crise global do petróleo, a déficits comerciais sucessivos, inflação interna e às dívidas geradas por guerras (em especial a do Vietnã), os EUA encontraram uma saída estratégica ao firmar um acordo com a família real da Arábia Saudita, protagonizado por Richard Nixon e Henry Kissinger.

Em troca de proteção militar aos campos petrolíferos sauditas, o governo estadunidense obteve o compromisso de que o petróleo daquele país seria comercializado exclusivamente em dólares, com a recusa de qualquer outra moeda como meio de pagamento.

Em 1975, essa lógica foi encampada por todos os países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), que passaram a precificar suas exportações em dólares e a reinvestir os excedentes em títulos da dívida do Tesouro dos EUA, em troca de garantias de segurança semelhantes.

Não por acaso, desde então, a maior parte do chamado “Oriente Médio” alinhou-se geopoliticamente aos interesses estadunidenses. E, como praticamente todas as demais nações dependiam em algum grau de petróleo importado, foram compelidas a manter volumosas reservas em dólares para assegurar o abastecimento energético.

Sustentação

A vigência do sistema do petrodólar ao longo das últimas cinco décadas criou uma demanda estrutural por dólares e sustentou artificialmente o valor dessa moeda, independentemente dos sucessivos e crescentes déficits fiscais e comerciais dos Estados Unidos.

Em 2019, a China figurava como a maior detentora de títulos do Tesouro estadunidense, com cerca de 1,1 trilhão de dólares, posição posteriormente assumida pelo Japão. Em maio de 2025, o cenário já havia se alterado significativamente: a Grã-Bretanha ocupava o segundo lugar, com 809 bilhões de dólares, enquanto a China caía para a terceira posição, com 756 bilhões.

Na sequência aparecem Canadá, Bélgica, Luxemburgo, França, Taiwan e Índia. O Brasil figura em décimo lugar, com cerca de 212 bilhões de dólares em títulos da dívida dos EUA. Ao mesmo tempo, a participação do dólar nas reservas cambiais mundiais, incluindo os ativos oficiais dos bancos centrais globais, caiu de aproximadamente 71% em 2000 para cerca de 58% em 2022.

Desde então, o processo de desdolarização, ainda que gradual, tem se mantido, com a diversificação de reservas por meio da aquisição de ouro, prata, de outras moedas, como o Yuan, e da realização de transações bilaterais diretas fora do sistema dolarizado. Esse movimento ganhou força especialmente após o congelamento e o confisco de ativos soberanos, como ocorreu com o Irã, a Venezuela e, mais recentemente, com a Rússia, em 2022.

O buraco é mais embaixo

De acordo com o mesmo relatório do Tesouro estadunidense publicado em outubro de 2025 (o ano fiscal de lá termina em setembro), além da dívida total de 38 trilhões de dólares, o déficit orçamentário no período fiscal acumulado no período 2024–2025 alcançou 1,77 trilhão de dólares, o equivalente a quase 10 trilhões de reais, cerca de 84% do PIB brasileiro de 2024.

Para arcar com o serviço dessa dívida, cujos juros anuais já se aproximam de 1 trilhão de dólares, os EUA dispõem basicamente de duas alternativas. A primeira é emitir e vender ainda mais títulos do Tesouro, elevando as taxas de juros e acelerando o crescimento da dívida. A segunda é ampliar a emissão monetária, desvalorizando o dólar e alimentando a inflação interna.

É nesse ponto que se revela a essência do problema. A questão central dos EUA não é a escassez de petróleo, terras raras ou outros recursos naturais. A geração de riqueza real, que decorre, em última instância, do trabalho, exigiria uma estratégia consistente de reindustrialização.

Contudo, ao aprofundar a desindustrialização e a financeirização do sistema, fenômeno previsto por Marx, o capitalismo estadunidense avançou para sua fase imperialista, descrita por Lênin, sustentando-se fundamentalmente pela hegemonia militar.

Nesse contexto, para os Estados Unidos, pouco importa hoje, na América Latina, o acesso direto a petróleo, soja, lítio ou qualquer outra commodity específica. O que realmente está em jogo é a manutenção da supremacia do dólar como moeda de referência global.

Para isso, torna-se estratégico garantir a existência de governos subordinados, dispostos a negociar em dólares, a aceitar regras impostas e a renunciar à soberania monetária, financeira e política de seus próprios países, a fim de continuarem financiando déficits crônicos, sustentando seu complexo militar-industrial e preservando um padrão de consumo interno que já não encontra lastro na produção real de riqueza.

Nesse sentido, a submissão econômica e política de países periféricos não é um efeito colateral, mas parte constitutiva da estratégia imperial contemporânea. Qualquer iniciativa que questione o dólar como moeda central do comércio internacional, que busque mecanismos alternativos de financiamento ou que fortaleça projetos de integração regional soberana passa a ser tratada como ameaça.

Daí a recorrência de decapitações de regimes, golpes híbridos, sanções econômicas, lawfare e intervenções políticas diretas ou indiretas, sempre justificadas sob o discurso da “defesa da democracia”, mas orientadas, em última instância, pela preservação de uma ordem internacional profundamente desigual.

Defender a soberania, hoje, é defender o direito dos povos de decidir seus próprios caminhos de desenvolvimento, romper dependências estruturais e resistir às formas modernas de dominação imperial. É essa contradição fundamental que precisa orientar nossa análise e nossa ação política.

 

Christian Vasconcelos

(Jornalista / SINDIPETRO-RN)