De acordo com o último Boletim Mensal da Produção Nacional de Óleo e Gás, publicado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em 5 de maio, a produção média do Rio Grande do Norte no mês de março de 2026 alcançou 33.198 barris de óleo equivalente por dia (boe/d). O volume superou em 2,1% a média registrada no mês anterior — período em que a produção potiguar atingiu um recorde histórico negativo —, mas ainda permaneceu abaixo do resultado obtido em janeiro, quando chegou a 33.397 boe/d, além de continuar inferior ao de todos os demais meses das últimas quatro décadas.

Embora o resultado de março interrompa momentaneamente a sequência de retrações observada nos meses anteriores, os números continuam evidenciando o aprofundamento da crise vivida pelo setor petrolífero potiguar. Na prática, o leve crescimento registrado não altera o quadro estrutural de declínio da produção no Estado, tendência que vem se confirmando mesmo após a privatização dos principais ativos terrestres e marítimos da Petrobrás na Bacia Potiguar.
Expectativas
Há cerca de sete anos, quando a Petrobrás deu início à venda de campos maduros e estruturas operacionais no Rio Grande do Norte, as promessas de investimentos e de retomada da produção por parte dos novos concessionários criaram um ambiente de forte expectativa. Em entrevistas, audiências públicas, eventos empresariais e reuniões com autoridades, dirigentes e executivos das chamadas “operadoras independentes” anunciaram programas capazes de elevar rapidamente os volumes de petróleo e gás produzidos no Estado. Em alguns momentos, chegaram a ser divulgadas metas ambiciosas de duplicação da produção em poucos anos e até mesmo a possibilidade de superação de marcas históricas alcançadas em décadas anteriores. Desde então, entretanto, a realidade vem confrontando esse discurso.
Em 2019, ano em que as privatizações tiveram início, a produção média de petróleo e gás do RN oscilava em torno de 44 mil boe/d. Esse volume, que à época já era considerado preocupante, tinha como principais explicações o declínio natural dos campos maduros e a decisão estratégica da Petrobrás de concentrar investimentos nos gigantescos reservatórios do Pré-sal. Naquele contexto, a narrativa predominante entre os novos operadores sustentava que a reativação de poços paralisados, associada à abertura de novas frentes de perfuração e à adoção de tecnologias mais eficientes, seria suficiente para interromper rapidamente a trajetória de queda da produção.
Palavras e ações
Durante o período de transição dos ativos, processo que resultou na privatização de 68 campos petrolíferos terrestres e marítimos, as promessas de investimentos envolviam cifras bilionárias a serem executadas ao longo de poucos anos. Falou-se em programas robustos de modernização operacional, recuperação de áreas produtivas, aquisição de equipamentos, melhoria logística, ampliação da infraestrutura de escoamento e processamento, além da implantação de novos sistemas de manutenção e atualização tecnológica voltados ao aumento da eficiência e à redução de perdas operacionais.

O argumento central em favor das privatizações era o de que as chamadas “operadoras independentes” teriam maior agilidade administrativa, custos mais enxutos e maior disposição para investir em ativos considerados secundários pela antiga controladora estatal. A expectativa amplamente disseminada era a de que esse novo modelo de gestão seria capaz de revitalizar a produção petrolífera potiguar, ampliar a arrecadação de royalties e impulsionar a geração de empregos e oportunidades econômicas em diversas regiões do Estado.
O tempo, porém, tratou de submeter esse discurso à prova dos fatos. Quase três anos após a conclusão da privatização do último grande ativo petrolífero estatal no RN — o Polo Potiguar —, a evolução real da produção seguiu direção oposta àquela anunciada na maior parte das projeções divulgadas durante o processo de venda dos campos. Em vez de uma inflexão positiva consistente, o que se observou, na maioria dos casos isolados, foi a continuidade de uma trajetória descendente, marcada por quedas sucessivas e pela incapacidade de sustentar uma recuperação duradoura.

Mesmo nos períodos em que houve alguma estabilização momentânea, os resultados permaneceram muito distantes das metas apresentadas durante a transição dos ativos. Dessa forma, o volume extraído em março de 2026 — que não representa uma exceção ou um simples ponto fora da curva — já corresponde a uma redução de aproximadamente 24% em relação ao patamar registrado há sete anos.
Encolhimento
Além da queda contínua da produção, o setor também passou a conviver com dificuldades operacionais e questionamentos relacionados às condições de manutenção e segurança de parte das instalações. Em outubro de 2025, por exemplo, a ANP interditou 109 instalações da Brava Energia na Bacia Potiguar após identificar problemas relacionados à falta de manutenção e segurança. À época, a empresa informou que realizaria as adequações necessárias ainda no decorrer do quarto trimestre daquele ano, com expectativa de rápida retomada gradual das operações. Entretanto, isso não ocorreu.
Em Comunicado ao Mercado divulgado no início de maio, a Brava Energia informou que “vem retomando gradualmente a operação das instalações que foram paralisadas em outubro de 2025, em decorrência de auditoria conduzida pela ANP”. Os efeitos práticos dessas medidas, porém, segundo deixa a entender a própria empresa, ainda não foram capazes de alterar significativamente a tendência de intensificação da retração observada nos indicadores mais recentes.
Os números atuais reforçam a percepção de que o processo de transferência dos ativos petrolíferos da Petrobrás para a iniciativa privada, ao menos até o momento, não produziu os resultados econômicos e operacionais inicialmente prometidos para o Rio Grande do Norte. Ao contrário: a produção estadual continua encolhendo, enquanto municípios produtores, trabalhadores do setor e toda a cadeia econômica ligada à atividade petrolífera acompanham, com preocupação crescente, o aprofundamento dessa trajetória de perdas.